abr 04 2008

As Glórias

Publicado por às 16:15 em Teatro

A Bíblia é extremamente teatral e inspiradora. No período do teatro mais pagão, no período barroco – um espetáculo mundano, longe de qualquer referência cristã, tinha que terminar gloriosamente. Foi o cristianismo quem criou a verticalidade teatral. A ascensão é o elemento mais glorioso já criado para o final de um espetáculo. Mesmo que o espetáculo seja sobre os deuses pagãos. É necessária uma visão celestial, apoteótica, para o resumo final dos conceitos, das intenções do texto, dos feitos e efeitos.

Mesmo que o cenário seja sobre os Babilônios séculos antes de Cristo, devem subir do limbo posterior do palco, atores e cantores sentados em nuvens como nas imagens sagradas, fazendo o papel de santos, profetas e apóstolos encimados pelo próprio Cristo. Mesmo num contexto pagão da Babilônia. E as cabeças estarão coroadas por esplendores, como nas pinturas das paredes dos templos cristãos. Tudo isso encenado e armado em estruturas pantográficas subindo lentamente num efeito extasiante, reservado para os aplausos, para os gritos e assobios coroando o Gran-finale. Eram nessa época as chamadas Glórias.

Nada melhor do que as glórias que arrancadas das ascensões dos profetas bíblicos serviam o teatro de qualquer gênero. Cobria-se a glória pagã, a inteligência pagã, a beleza pagã, os mitos pagãos com o manto diáfano do cristianismo. Isso era necessário para dar gigantismo aos espetáculos cantados – porque na época não se falava com os deuses ou com Deus – cantava-se. Tudo era a procura da grandiloqüência barroca.

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