abr 03 2008

Bibi

Publicado por às 16:29 em Teatro

Muitas vezes é cheia de surpresas a convivência com profissionais de teatro que têm uma visão autorizada e única transformando qualquer texto, no texto que querem fazer. Bibi Ferreira recebeu um texto extremamente dramático de um jovem e talentoso autor. A peça se referia a uma personagem que era um escritor em luta com suas personagens complexas, ainda não resolvidas e impertinentes. Durante o espetáculo o destino das personagens seria resolvido com um final extremamente inteligente.

Na visita ao apartamento de Bibi o autor desejoso de que ela dirigisse o drama seriíssimo que ele havia criado e que segundo ele só ela poderia fazê-lo, ficou nervosamente esperando o veredicto da diretora. Ela com aqueles olhos cheios de certeza e de uma longa experiência sobre o que era e o que não era o teatro, carregando em si o palco e as lutas teatrais como uma longa herança, filha que era de um grande ator, finalmente olhou-o duramente e lhe disse:

- Seu texto não é um drama. É uma comédia e é uma comédia que faremos.

O jovem autor nunca imaginara aquilo e paralisado sentiu-se entre surpreso, decepcionado e tonto, sem atinar com o que havia ouvido. Mas como? Não há sinais do cômico e as personagens são nobres, mais para a tragédia do que para a comédia. Comédia?

Durante as duas horas que esteve com a Bibi o autor teve que inverter a visão de seu texto e conseguiu compreender afinal a visão da genial atriz e diretora. Ela tinha razão: que maravilhosa comédia seria esse texto que ele escrevera com tanta ingenuidade. Era a sua criação teatral de um momento humano risível, talvez mesmo pela seriedade que as personagens se davam. Bibi tinha a razão não só de uma real criadora teatral, mas de um ser humano muito apto para compreender a tragédia ou a comédia humanas.

E o espetáculo foi um sucesso.

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