mai 26 2008

O palco como o deck de um navio

Publicado por às 11:50 pm em Teatro

Quando estamos preparando as montagens teatrais sempre reconhecemos o palco como o deck de um navio. É como se os cicloramas, cenários, comodins, cortinas – se levantassem para partir. É quando suspensas nas varas que os marujos chamam de vergas, as peças cenográficas se apresentam, prontas, infladas esperando, após expirar o tempo de preparação, os ensaios, as repetições, e então tudo se torna um destino desconhecido: a carreira do espetáculo e as ondas de aplausos.

O palco é um navio. O palco é composto das partes de um navio, sobretudo aquele palco que herdamos dos séculos XVI e XVII. Desloque até o mar o piso de um palco feito com pranchas de madeira, faça subir com cordas e manobras o cenário, amarre-o nas malaguetas das varandas aéreas, aguarde a viração e veleje: o vento vai inflar o cenário e o palco vai se tornar um navio. Tudo com o kow-how da marinha. Deck, mastro, mezena, brigantina, vela de flecha, joanete volante, gávea fixa, traquete, trouxeram para o Teatro os antecedentes navais.

Muitas vezes foi possível ouvir uma ordem de um cenotécnico, chefe do palco, que como um timoneiro, um Arrais, um mestre armador, vendo que foi perdida a posição desejada do cenário em sua verga, e querendo modificar a posição do cenário pendurado, incliná-lo, ele grita: é só dar um vento. O vento vem do mar e entra na caixa do palco junto com os meios marítimos que durante muitos séculos nos ensinaram a armar os cenários.

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